Quaresma e Campanha da Fraternidade

No dia Primeiro de março, a Igreja Católica entrou no tempo da Quaresma e iniciou a Campanha da Fraternidade que tem como tema: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” e como lema “Cultivar e guardar a criação”.
A Quaresma é um tempo forte de conversão para os católicos, mas esse apelo supera os limites da Igreja para convidar as pessoas de boa vontade a uma transformação da vida e da sua relação com os biomas brasileiros.
Bioma é uma palavra pouco conhecida, mas exprime uma realidade essencial da vida que inclui o solo, a água, a luz e todos os seres vivos, de modo especial os humanos.
Esses elementos não estão simplesmente presentes em um único ambiente, mas se relacionam e interagem vitalmente: tudo está relacionado com tudo.
Com a Campanha da Fraternidade, os católicos desejam convidar as pessoas de boa vontade para o cuidado com a vida no planeta. Como tudo se relaciona com tudo, defender os biomas brasileiros significa cuidar da natureza e da humanidade, principalmente das pessoas mais pobres; significa também rever e mudar o nosso modo de viver e de professar a fé cristã.
A terra existe antes de nós, e nos foi dada por Deus para “cultivá-la e para guardá-la”(cf. Gn 2,15). Na Revelação bíblica, “cultivar” quer dizer lavrar ou trabalhar um terreno, e “guardar” significa proteger, cuidar, preservar. Concretamente “cultivar e guardar a terra” implica uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza. Com efeito, todos nós podemos tomar da bondade da terra aquilo de que necessitamos para a sobrevivência, mas temos também o dever de protegê-la e garantir a continuidade da sua fertilidade para as gerações futuras.
Não queremos entregar para as próximas gerações uma criação esgotada e destruída. Assim a reciprocidade responsável se desdobra em uma solidariedade inter-geracional.
Os cristãos defendem uma espiritualidade fundada no Deus criador: “ao Senhor pertence a terra” (Sl 24/23,1); a Ele pertence “a terra e tudo o que nela existe” (Dt 10, 14). A conversão quaresmal se concretiza na vivência de uma fraternidade que inclui a
nossa casa comum, nos faz tomar consciência de que não somos Deus. Por isso, Deus nos proíbe toda a pretensão de posse absoluta da natureza. A melhor maneira de colocar o ser humano no seu lugar e acabar com a sua pretensão de ser dominador absoluto da terra, é voltar a propor a figura de um Pai criador e único dono do mundo; caso contrário, o ser humano tenderá sempre a querer impor à realidade as suas próprias leis e interesses.
A criação é muito mais do que a simples natureza. Por isso, não é suficiente a mera preservação da natureza. É preciso defender a criação de Deus! Cuidamos da nossa casa comum e temos zelo pela criação porque ela é projeto do amor de Deus. Professar a fé no Criador inclui considerar que, na criação, cada criatura tem um valor e um significado em si mesma. O conceito de natureza se entende habitualmente como um sistema que se analisa e se administra, mas a criação só pode ser concebida como um dom que vem das mãos abertas do Pai, como uma realidade iluminada pelo amor que nos chama a uma comunhão universal.
Nós cremos que a criação pertence à ordem do amor e não somente à ordem econômica de recursos a serem explorados e consumidos. O amor de Deus é a razão fundamental de toda acriação: «Tu amas tudo quanto existe e não detestas nada do que fizeste; pois, se odiasses alguma coisa, não a terias criado» (Sb 11,24). Assim cada criatura é objeto da ternura do Pai que lhe atribui um lugar no mundo. Até a vida efêmera do ser mais insignificante é objeto do Seu amor e, naqueles poucos segundos de existência, Ele envolve-o com o seu carinho.
A natureza está cheia de palavras de amor do Pai e para ouvi-las celebramos a quaresma e a Campanha da Fraternidade.

Dom Julio Endi Akamine é Arcebispo de Sorocaba